segunda-feira, 22 de abril de 2013

Almas sem lacre

Gosto de imaginar que, dentro de cada um de nós, há um depósito. Um depósito imenso, desses que comportam contêineres, caixas e um amontoado de bagulhos. Coisas que a gente vai recolhendo por onde passa - tipo fotos do verão passado, souvenirs de viagens inesquecíveis, cartas a serem guardadas. 

Eu tenho meu depósito interior, e creio que, aí do outro lado da tela, também haja outro. Talvez você, caro leitor, nunca o tenha vasculhado, mas que ele está lá, está. É aquele cantinho da gente - e só da gente - onde ficam escondidinhas certas emoções. Recordações de fins de semana deliciosos ao lado de amigos, risos escancarados causados por anedotas ouvidas, aquele perfume que te remete com exatidão a uma cena vivida. Cabe tudo dentro de nós!

E, nesse depósito da alma estão também as caixas de pertences em desuso. Como se fossem caixas de mudança, sabe? De papelão, grandes, quadradas, com as tampas lacradas com fita crepe. Caixas de sentimentos que nem sempre revisitamos. Ora por medo, ora por respeito ao que passou. Está lá, em uma dessas caixas empoeiradas, aquela manhã de sábado em que mamãe morreu. Não mexo também nas poucas lembranças que tenho do meu pai. Evito dispersar a poeira que paira sobre a caixa das dores e doenças do passado. Deixo tudo lá, quietinho. Mas sei que existe.

Nessa imensidão de guardados, certamente eu, você, nosso vizinho do lado, todos nós temos uma caixa de beijos gostosos que ficaram para trás. De gente querida a quem demos as mãos, de amores saborosos que não vingaram. E a vida, apressada que só, vai jogando outras toneladas de guardados sobre tudo isso - contas a pagar, emprego, mercado financeiro, o preço do pão de sal, o nascimento das crianças, o casamento da melhor amiga, o desânimo com o trabalho... ufa! É muita caixa para um espaço gigante e ao mesmo tempo ínfimo, visto que está dentro do peito.

Mas, calma aí... olhando direitinho, com atenção, nem tudo está lacrado. Como aqueles velhos álbuns de fotografia empilhados sobre o guarda-roupa, há caixas de sentimentos que estão entreabertas. Olhe bem... e de novo. Lá no cantinho, naquele espaço escuro que você parece não perceber existe uma caixa aberta. Ela está cheia de planos que você fez e não teve a audácia de correr atrás. Tem beijos memoráveis da juventude, tem gosto de broa de fubá, carinhos e olhares daquela tia que mora longe, tem histórias com começo, meio e... sem fim.

No fundo, no fundo da alma, todos nós temos caixas mal fechadas remetendo a de tudo um pouco. Tem amor não resolvido, brigas não esclarecidas, mágoas escondidas (na base do "vou deixar passar dessa vez..."), desaforos engolidos, palavras não ditas que, como nós atados, foram jogadas lá no fundo, para serem esquecidas. E nunca serão. Quanto mais vivo, mais certeza tenho de que certas caixas da alma jamais serão fechadas.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Seja feliz, Feliciano!

Minha prima Larissa diria que eu não dispenso um "bafuê" ou algo do tipo, que seja sinônimo de "estar sempre em confusão ou gostando de pelejas". Não sei bem se é assim, mas aqui vou eu. Não estou nem aí para o tal Marco Feliciano! Pouco me importa o preço do tomate. Simples assim. 

E sabem por que? Porque Feliciano é um infeliz querendo aparecer. Demorei a escrever isso por um pouco de preguiça - ou, ainda, porque acho isso tão, mas tão óbvio, que me parece que todos deveriam percebê-lo. Minha gente, um homem que diz a uma revista de circulação nacional que, quando crespo, "era um monstrinho", que faz chapinha e redesenha a sobrancelha, e que brada aos quatro ventos ódio por negros e gays, só pode ser o que? In-fe-liz.

Infeliz pelas palavras, infeliz por ser quem é. Como disse a Dilma do humorista Gustavo Mendes: "- Tira seu cabelo do armário, Feliciânus!". Acho que isso falta ao nobre parlamentar da língua ferina. Saber quem é, gostar de quem é, para depois ir olhar para o (perdoem-me a falta de sutileza) rabo dos outros. Por isso, caros, não estou nem aí para ele. Enquanto diz bravatas para despertar a ira das minorias, Feliciano chora, trancado no banheiro, com pinça na mão, enquanto a monocelha se anuncia e a raiz cacheadinha grita no espelho.

Quanto aos tomates... estão caros? Valem mais que a barra de ouro do Silvio Santos? Merecem virar colar no colo de Ana Maria Braga? Ótimo! Vamos comer salada de alface. Para incrementar, vale uma lata de palmito em conserva, um bom azeite e, se o paladar pedir, alguma outra folhagem verde mais em conta. Desde quando tomate é essencial para a vida? Até ontem eu não sabia que ele era tão extraordinariamente necessário aos brasileiros. Vamos parar de show e comprar algo mais barato. Um dia o preço cai.

Os ônibus lotados, o desuso de desodorante por quem usa o transporte público, a sujeira nas ruas, a hipocrisia dos políticos, os baixos salários, os problemas de saúde, o preço dos remédios, a queda de cabelo, os quilos a mais e as calças jeans que não abotoam mais vêm à frente do armário do deputado e da banca da feira na lista de motivos que me tiram o sono e o bom humor. Então, seja feliz, Feliciano. E entupa-se de tomates!